terça-feira, 31 de agosto de 2010

Drinques com café


O grão faz par com destilados, cremes e até sucos na composição de bebidas quentes ou frias (por Luciana Mastrorosa)

Brasileiro adora um cafezinho, seja expresso ou de coador, seja adoçado ou não. Com a variedade crescente de cafés gourmet, o gosto nacional pelo café de todo dia vem se aprimorando, assim como as receitas de drinques com a bebida. Quentes ou frios, os novos drinques podem levar destilados, sorvetes, caldas, licores, chantilly e até suco de frutas e comprovam a versatilidade do grão em coquetéis alcoólicos ou sem álcool.

Baristas e especialistas criam suas versões de clássicos preparados com café, como o irish coffee, com uísque irlandês, além de desenvolver outras combinações em que o "pretinho básico" é a estrela. "O brasileiro se identifica com a bebida, e isso facilita ao criar novas receitas", afirma o barman Derivan de Souza, do Esch Café. "A rejeição de drinques com café é muito pequena", acrescenta ele.

Na criação dos drinques duas regras exigem a atenção dos experts. A primeira é destacar o sabor do grão e escolher ingredientes que não apaguem o seu sabor. "Os outros componentes são acessórios no coquetel", explica a barista Cida Campos, do Espaço Cida Campos Café.

A segunda é escolher bebidas que harmonizem com o amargor do café. Destilados como uísque, rum e vodca combinam bem com esta característica do cafezinho. Os fermentados, como vinho e cerveja, devem ser evitados, com exceção dos vinhos fortificados, como o Porto. "Por serem doces, estes vinhos contrabalançam o sabor amargo", explica Souza. Até a brasileiríssima cachaça casa bem com a bebida. "Recomendo, para estes drinques, uma do tipo premium ou com dois ou três anos de envelhecimento em carvalho, ipê, amburana", diz Rodrigo Sepúlveda, barman do L'Entrecôte de Ma Tante. São notas de madeira e, às vezes, também adocicadas, que tornam estes drinques mais harmônicos. E uma dica aqui é sempre utilizar o café recém-preparado no drinque. "No requentado, o amargo sobressai", afirma Marcelo Tatu, barista do Santo Grão.

Nem só os alcoólicos harmonizam com o amargor do grão. Cida lembra que ingredientes como leite, chocolate e cremes são combinações clássicas com o café para quem aprecia drinques sem álcool. Outra opção são as frutas ácidas, como laranja e pêssego, que também fazem par interessante com a bebida, apesar de parecer estranho. "A acidez do café e da laranja combinam muito bem. No caso do pêssego, a doçura combina com o amargo. Até limão fica ótimo, em drinques geralmente frios", indica a barista.

E o que é melhor, café expresso ou de coador? "Para drinques, recomendo o expresso", defende Alexandre D'Agostino, barman do restaurante Spot. "A espuma da bebida dá uma textura interessante. Por ser mais concentrado, funciona melhor do que o café coado", ensina ele.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Cachaça Premium: muito além da pinga


A onda das cachaças elegantes, que chegam a custar o mesmo que uma garrafa de uísque, invade o Brasil, ganha o mundo e, claro, o gosto dos consumidores!

Texto: Simone Santos

A expressão “preço de pinga” pode ser aposentada. O Brasil já vive um boom das cachaças elegantes, apresentadas em embalagens bem cuidadas e rótulos com estilo, que chegam a custar o mesmo valor de um uísque ou vinho importado. É a onda da “cachaça premium”, feita sob medida para exigentes consumidores. O preço? De R$ 300 a R$ 1 mil, dependendo da marca. E detalhe; ninguém reclama.

A cachaça Premium está no mercado há cerca de 10 anos. Os produtores ainda são poucos, mas já estão espalhados por todo o Brasil. “A Cachaça Premium vem ganhando prêmios em diversos concursos mundiais. O que o brasileiro precisa é acreditar no seu produto, ganhar auto-estima e saber valorizar o que produz”, atesta o consultor enogastronômico e técnico sensorial de bebida, Renato Frascino, 61 anos.

Neste momento, você pode estar confundindo cachaça com pinga. Mas Renato trata logo de esclarecer: pinga é uma bebida de coluna e cachaça, de alambique. E ensina: não deve nunca ser servida em copinhos dedais ou de plásticos, mas em cálices e com o requinte que a bebida merece.

A bebida, diz Renato, também não deve ser jogada ao chão, costume encontrado até hoje
NetWords
nas cidades do interior do Brasil, em que um pouco da bebida vai “para o santo”. “A cachaça deve ser jogada para o alto, local em que está o que é sagrado”, explica.

Segundo o especialista, a cachaça Premium pode ter aroma de amendoim, bálsamo, carvalho, pão, madeira ou frutas. “Pode até ter o aroma do orvalho, porque cachaça é poesia”. Entendeu? Deve ser por isso que, segundo Renato, trata-se de um mercado em expansão. Tintim!

Requinte
Esqueça as garrafas descuidadas, os rótulos deselegantes e o papel de pão como embalagem. A cachaça Premium está sendo levada tão a sério que, visualmente, em nada fica devendo para uma garrafa de uísque.

Algumas marcas, como a Sarau Dona Beja, se sofisticaram tanto que podem vir com detalhes em ouro, feitos à mão. Outras, como a Cachaça Cabana, ganham campanhas publicitárias divinas, e divulgam o produto no exterior.

Mas uma das cachaças Premium mais famosas do país, continua mantendo a tradição: é vendida em garrafa comum, de vidro fosco. Produzida em Salinas (MG), esta cachaça – de nome Havana -- tem história.

A Havana já era considerada uma das melhores cachaças artesanais do Brasil quando, em uma briga judicial, o produtor Anísio Santiago perdeu o direito sobre a marca. A garrafa e a bebida continuaram a mesma, mas o rótulo sofreu uma alteração: de Havana passou a levar o nome de seu criador, Anísio Santiago. Hoje, uma garrafa com o rótulo original e número de série custa entre R$ 700 e R$ 1 mil no mercado. Virou, quem diria, peça de colecionador!

História
A cachaça tem também várias histórias. Uma delas, envolve Carlota Joaquina, esposa de Dom João -- princesa e depois rainha de Portugal, Brasil e Algarves – que provou que não era de toda louca: adorava cachaça e palmito.

Outra, mas agora da história recente do Brasil: a Organização Mundial de Alfândegas (OMA) registrou a cachaça no mercado internacional. Além de nenhum outro país poder utilizar a denominação quando se referir ao produto genuinamente brasileiro, o registro leva o nome do Brasil para o mundo.

Quer aprender a palavra nos diversos idiomas? Então, anote e não esqueça de tomar cuidado com a pronúncia:

Em inglês: cachaça;
Em francês: cachaça;
Em espanhol: cachaça...

Um luxo, que claro, como toda bebida alcóolica, precisa ser apreciado com moderação e com a máxima que nem precisaria ser dita: "se beber, não dirija"! Aí, é luxo só!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

História da Destilação de Bebidas Alcoólicas


O processo de destilação (do Latim 'de-stillare' que significa 'gotejar") consiste na separação de um líquido através da sua evaporação e condensação. O exemplo mais simples deste processo pode observar-se quando o vapor de uma caldeira se deposita em gotas de água destilada numa superfície fria. A destilação é empregue para separar líquidos de sólidos não voláteis, assim como na separação de licores alcoólicos de matérias fermentadas, na separação de dois ou mais líquidos com diferentes pontos de ebulição, na separação de gasolina, petróleo e óleos lubrificantes extraídos a partir do crude. Outras aplicações industriais incluem a dessalinização da água do mar (extrair a salinidade da água para a tornar potável).

No século IV a.C., Aristóteles sugeriu a possibilidade de se efectuarem destilações, tendo escrito que: "Através da destilação podemos tornar a água do mar potável e o vinho, assim como outros líquidos podem ser submetidos a este mesmo processo”. Com efeito, a destilação é um processo antigo, remontando ao ano 2000 a.C. Considera-se que as primeiras destilações se fizeram na China, Egipto e na Mesopotâmia e tinham, sobretudo, propósitos medicinais, mas também visavam a criação de bálsamos, essências e perfumes. Na Mesopotâmia, por volta do ano 1810 a.C. a perfumaria do rei Zimrilim empregou este método para todos os meses fazer centenas de litros de bálsamos, essências e incensos de cedro, cipreste, gengibre e mirra. As destilações efectuadas visavam a produção de cosméticos, substâncias medicinais e substâncias utilizadas no embalsamamento de mortos e na realização de rituais espirituais. A rainha Cleópatra conhecia a arte da destilação e pensa-se que fez um relatório deste processo, texto esse que se perdeu. No século I, o físico grego Pedanius Dioscurides fez uma menção a este processo após ter observado a condensação na tampa de um recipiente, no qual tinha sido aquecido algum mercúrio.

Os historiadores afirmam que o alambique foi, muito provavelmente, inventado por volta dos anos 200 ou 300 d.C., por Maria, a Judia ou por Zósimo de Panóplia, um alquimista egípcio cuja irmã, Theosebeia, inventou muitos modelos de alambiques e condensadores de refluxo. Outros afirmam que durante os séculos VIII ou IX, os alquimistas árabes planearam utilizar o alambique para obterem essências mais refinadas utilizadas nos perfumes, enquanto que outros alquimistas árabes o utilizaram para tentar converter metal em ouro. "Ambix” é uma palavra grega utilizada para designar um vaso com uma pequena abertura. Este vaso fazia parte do equipamento de destilação. Inicialmente os árabes mudaram a palavra “Ambix” para “Ambic” e chamaram “Al Ambic” ao equipamento de destilação. Mais tarde, na Europa, a palavra foi alterada para “Alambique”.

Destilação dos Vinhos

As civilizações de quase todas as partes do mundo cedo desenvolveram algumas bebidas alcoólicas. No ano 800 a.C., os chineses destilaram uma bebida do arroz. Aparentemente, os romanos produziram uma bebida destilada, apesar de não se encontrarem referências escritas anteriores ao ano 100 d.C. A produção de bebidas espirituosas através de destilação remonta à Grã-Bretanha, no período anterior à conquista romana. Portugal, Espanha, França e o resto dos países do oeste europeu muito provavelmente produziram bebidas espirituosas, mas de forma limitada, após terem contactado com os árabes.

Atribui-se a Ibn Yasid a utilização do alambique com vista à obtenção de álcool. Esta descoberta foi, presumivelmente, feito após o século X. Inicialmente, o álcool foi utilizado para fins medicinais e para prolongar a esperança de vida (a chamada “água milagrosa” ou elixir da vida). As primeiras bebidas alcoólicas destiladas eram feitas de substâncias à base de açúcar, originalmente utilizaram-se as uvas e o mel para fazer brandy de uvas e hidromel.

No século XI, a invenção do tubo de arrefecimento em espiral operou a principal mudança na destilação. Avicenna inventou um tubo de arrefecimento que permitiu que o vapor das plantas arrefecesse mais depressa, ao contrário do que sucedia anteriormente quando os destiladores utilizavam um tubo de arrefecimento recto.

Nos séculos XIV e XV, ao longo das invasões turcas na Europa, empreendidas em nome de Alá, foram deixados pelos turcos muitos costumes, tradições e segredos nos países por eles cruzados. Entre estes segredos estava a destilação. O “al-ambiq” ou alambique, e o fabrico de “al-koh`l” ou álcool em breve se tornaram bem conhecidos no mundo cristão. Com a difusão do conhecimento da destilação por toda a Europa, este processo desenvolveu-se, incluindo os seus efeitos no líquido, e enquanto o sonho dos alquimistas de fazer ouro com o alambique continuou um sonho, foram descobertas bebidas espirituosas, que foram chamadas de acqua vitae ou “elixir da vida”. As bebidas espirituosas ou “elixir da vida” eram usadas em virtude das suas qualidades terapêuticas. As observações farmacêuticas efectuadas cedo atribuíram poderes curativos às bebidas espirituosas, uma vez que estas provocavam um sentimento de relaxamento e bem-estar. Desde então tornou-se habitual o consumo de bebidas alcoólicas espirituosas em ocasiões sociais, o que originou uma variedade sem fim de bebidas comercializadas actualmente como o Palinka da Hungria, o Schnapps da Alemanha, a Grappa da Itália, o Cognac e Eau de Vie da França, o Whisky da Escócia e da Irlanda, Aguardente de Portugal, a Tequila do México, o Rum dos Barbados e das Caraíbas ou a Vodka da Polónia e da Rússia, todas elas consideradas ‘Aqua Vitae' ou ‘elixir da vida".

Gradualmente, o alambique foi sendo melhorado. Em 1526, Paracelsus utilizou pela primeira vez o ‘banho-maria’, então apelidado de balneum Mariae pelos alquimistas. Este método evitava que se abrisse uma fenda no recipiente enquanto este aquecia e estabilizava a temperatura dos líquidos. O sistema de arrefecimento do vapor também foi melhorado. O tubo funcionava através de recipientes que continham água fria. Em 1771, o químico alemão Christian Ehrenfried Weigel inventou um instrumento que mais tarde foi erradamente chamado de condensador de Liebig, o percursor do equipamento de condensação da actualidade, no qual o tubo que conduz o destilado para fora do alambique estava dentro de um outro cheio de água.

Muitos dos alambiques mudaram as suas formas e evoluíram de acordo com o país que usava o equipamento de destilação e, claro, da capacidade do alambique (dependente do produto que se pretenda destilar). O alambique tradicional português tem uma forma arredondada, semelhante a uma cebola, isto porque os destiladores cedo acreditaram que quanto mais arredondada fosse a sua forma, mais se favorecia o retorno dos vapores de água para o pote, possibilitando a obtenção de uma aguardente de grande qualidade.

A manufactura de alambiques de cobre portugueses é tão antiga quanto a produção de aguardente. Com efeito, a aguardente é um ingrediente essencial do mundialmente conhecido Vinho do Porto. A história do Vinho do Porto é longa e antiga. Acredita-se que as primeiras vinhas tenham sido plantadas pelos fenícios na região da Régua, ao longo do vale do Douro. Não há carência de provas arqueológicas. O espólio arqueológico inclui tanques de pedra onde se pisavam as uvas, que datam, no mínimo, dos séculos III e IV. No entanto, este vinho apenas foi apelidado de Vinho do Porto durante a segunda metade do século XVII, altura em que se adicionou aguardente aos vinhos provenientes desta região. Ao longo desta época, as vinhas da região do Douro expandiram-se, verificando-se um extraordinário aumento na exportação de Vinho do Porto. A comercialização do Vinho do Porto expandiu-se ao longo dos séculos XVIII e XIX, competindo com a conhecida indústria de vinhos francesa. (Destilarias Eau-de-Vie - Iberian Coppers S.A.)

terça-feira, 6 de abril de 2010

Destilados


RICARDO AMPUDIA

Frutos de um paciente trabalho quase todo – ou às vezes totalmente – artesanal, as
bebidas destiladas têm o requinte das histórias que vão desde as florestas mexicanas
até os barris de carvalho escoceses.

Puro e sem gelo para aquecer no frio, gelado e com frutas para refrescar no verão. A versatilidade das bebidas destiladas está presente tanto no seu uso quanto na sua origem, já que podem ser feitas desde de um grão de centeio até de um imenso fruto mexicano.

Cada país tem sua destilada nacional e o Brasil não ficou atrás na conquista de paladares ao redor do mundo, com a sofisticação e a arte de produzir a cachaça. O caldo destes vegetais, ricos em açúcar e amido, são deixados em repouso, fermentando. O açúcar vira álcool sob a ação de microorganismos e a cada bebida toma seu caminho.

Brasileiríssima, cachaça

A dose escorrega boca adentro dando a sensação de refrescância, seguida de um calor picante que alcança a garganta e revela sabores conhecidos: baunilha, frutas, raízes. Paixão popular agora reservada também às boas mesas da gastronomia e apreciação de bebidas, a cachaça se destaca como o que há de melhor nas destiladas do mundo e tem gostinho de Brasil.

Fruto de um acidente, a cachaça foi descoberta pelos escravos que deixaram o caldo de cana desandar enquanto faziam melaço, e acabou fermentando. Resolveram cozinhá-lo mesmo assim e, das gotas do vapor que subia e liquefazia no teto – daí o nome popular pinga – perceberam um sabor agradável e refrescante. Estava criada a cachaça que, por muitos séculos, continuou estigmatizada como uma bebida das classes mais baixas, sem qualidade.

“Há pouco tempo não se encontrava a cachaça em restaurantes sofisticados no Brasil, o que deveria ser exatamente o contrário. Diferentemente daqui, em outros países a primeira coisa que lhe oferecem é a bebida nacional”, diz o sommelier Daniel Santos, professor de conhecimento de bebidas do Centro Europeu. Cachaça é um destilado da cana-de-açúcar que segue critérios definidos em lei nacional sobre a porcentagem de álcool e açúcar. Aguardente de cana é o termo genérico para destilados à base de
cana, podendo ser produzida em qualquer parte do globo – o rum, por exemplo é uma aguardente de cana – cachaça, só em território nacional, ainda que essa regra não seja respeitada em todos os continentes. “Para alguns países, em especial os Estados Unidos, precisamos exportar como brazilian rum, já que eles não reconhecem a cachaça como uma bebida específica”, diz Carlos Eduardo Lima, coordenador do Instituto Brasileiro da Cachaça.

O processo de destilação varia do artesanal – em alambiques de cobre e envelhecimento em tonéis de madeira – às gigantescas colunas de aço inox utilizadas nas indústrias para produção em larga escala. “Algumas dessas indústrias estão mais preocupadas com o volume de produção e não conseguem controlar a qualidade do sabor, por isso as de alambique são mais requintadas”, comenta o cachacier Maurício Maia, que há mais de 15 anos prova e aprova cachaças.

Poucas fábricas misturam os dois processos como é o caso da paulista Sagatiba – que mantém rótulos de cachaças artesanais e de colunada – e a cearense Ypióca, que desmonta as torres de destilação de inox e substitui algumas peças internas por cobre, segredo guardado a sete chaves na indústria, que é gerenciada pela mesma família há 160 anos. Em comemoração ao aniversário da empresa, a Ypióca lançou uma cachaça com malte, uma iniciativa inédita do mercado que promete agradar também os apreciadores de uísques.

Os especialistas são unânimes ao dizer que o cobre influi no sabor da bebida, mas a parte fundamental do processo é o envelhecimento. O líquido fica em repouso em tonéis de madeira, onde a troca de gases regula a acidez da bebida, responsável por provocar o ardor na boca. A acidez é provocada por fatores como o clima e o solo. Alguns produtores utilizam ainda a queima da cana, prática não recomendada e que aumenta significamente a acidez da bebida.

O período de repouso pode variar de seis meses a um ano e meio para as cachaças chamadas jovens ou até doze anos para as envelhecidas.

Caipirinha - Protegida por lei

Não só a pura cachaça ganhou o mundo afora. A caipirinha é a combinação mais conhecida e é feita exclusivamente com cachaça, limão e açúcar. A receita é protegida pelo Decreto 4.072, assinado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, em 2002.

Cinco anos antes, foi reconhecida pela Associação Internacional de Bartenders como uma das 50 bebidas mais importantes do século 21.

Os especialistas aconselham o uso de cachaça jovem e branca para o preparo de caipirinha. “A envelhecida também pode ser usada, mas vai interferir bastante no sabor do drinque. Porém, pode proporcionar um paladar agradável.

A recomendaçãao e que a cachaça seja artesanal, de fermentação natural. O limão deve ser Taiti, descascado. “Retirar a parte branca do interior do limão (aquele fiozinho branco) é fundamental para não amargar a bebida”.

Caipirinha, orgulho nacional

A caipirinha nasceu no interior paulista no século 18. Naquela época, a cachaça, abundante nos vilarejos, era consumida pura por seus apreciadores, todos homens. Para não abandonar o trago quando estavam doentes, eles a teriam transformado em remédio acrescentando limão e alho - ingrediente logo desprezado.

Muito tempo depois, na década de 1950, com a urbanização desses lugares, a bebida ganhou adeptos nas metrópoles e acabou ficando assim: cachaça, limão, açúcar e gelo, receita registrada como a versão clássica que tenta garantir a propriedade intelectual sobre as marcas Caipirinha e Cachaça na legislação internacional. Isso porque o sucesso do drinque atravessou fronteiras e, atualmente, figura no cardápio de coquetéis de restaurantes na Alemanha e nos Estados Unidos.

Sabores mil


Os defensores da tradição não trocam a cachaça por nenhuma outra bebida e muito menos aceitam outra fruta no lugar do limão. No entanto, muitos a preferem com vodca ou saquê, misturada a frutas como lima-da-pérsia, abacaxi, maracujá, carambola, jabuticaba, tangerina, lichia e frutas vermelhas - variações encontradas em todo o Brasil, confirma o barman Deusdete de Souza, do Veloso Bar, em São Paulo. Segundo ele, a caipirinha deve ser mexida com uma colher ou bailarina, sempre de baixo para cima. "Quando se usa a coqueteleira para misturar os ingredientes, vira batida de fruta", diz o barman.

Ele ensina outros truques: a bebida é colocada sempre no final e jamais se deve servir caipirinha com canudo, pois o sabor da mistura dos ingredientes não é sentido na boca. "Atualmente, a sensação na noite paulistana e em outras cidades do país é a saquerinha, feita com saquê, bebida à base de arroz que agrada bastante ao paladar das mulheres", conta Sérgio Marques, da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel).

Casamento perfeito

Poucos drinques contêm ingredientes que se harmonizam tão bem quanto os da caipirinha. De sabor tropical, é associada ao churrasco e à feijoada. Não é à toa, pois atua como adstringente no paladar e abre o apetite. Também faz par perfeito com petiscos. Tornou-se tão popular porque circula sem cerimônia por botecos de esquina e restaurantes sofisticados. E seu prestígio não pára de crescer: já consta na lista oficial de drinques da renomada International Bartenders Association (IBA), fundada em 1951 na Inglaterra. Assim, sirva caipirinha sem medo de errar. É bem-vinda em qualquer ocasião! (Revista Cláudia)